CANHOTICES

...em Torres Novas, Ribatejo, Portugal. Do lado esquerdo da vida.

2.3.07

Galrinho, adeus.(2)

Publicada por zemanel |


Era assim naquele salazarento tempo: quando as famílias eram de poucas posses e dinheiro mal chegava para a singeleza do pão e vinho sobre a mesa, feita a quarta classe (ou, amiúde nem isso...) mandavam-se os filhos mais espigadotes à labuta, para que a miséria não fosse tanta. Foi o que aconteceu Manuel Bento, que, aos 11 anos, foi para ajudante de pedreiro. O que lhe suavizava as mágoas era a esperança de que o futebol o resgatasse daquele triste fado. Aos 5 anos tornou-se guarda-redes do Riachense, começando, sobretudo, a aguçar o espírito de sacrifício: para se treinar tinha de fazer, todos os dias, ao fim do dia de trabalho e canseira, cinco quilómetros numa bicicleta pasteleira, da Golegã, onde morava, a Riachos. Assim foi, um ano inteiro, até que o Goleganense formou a sua equipa de juniores e Manuel se despediu do Riachense. Deu nas vistas, o Torres Novas e o União de Tomar quiseram contratá-lo, mas, de súbito, mais enleante seria o canto de sereia: à casa do pedreiro onde deixara já de ser aprendiz chegou o convite para se deslocar, à experiência, a Alvalade! Foi como se tivesse ganho o totobola. Foi. instalaram-no no Lar de Alvalade, durante três meses. Aprovou. Nunca percebeu porquê, um dirigente do Sporting abeirou-se, certo dia, de si, dizendo-lhe que fosse à Golegã pedir de borla a carta de desvinculação. Sentiu que seria dura a injustiça para um o clube que o lançara. E num assomo de dignidade, como muitos outros haveria de ter ao longo da sua vida, foi ao quarto, emalou a trouxa, apanhou a camioneta e regressou a casa, matraqueando, ao longo de todo o caminho, que, no Sporting nunca jogaria, mesmo que lhe dessem todo o dinheiro do Mundo!
A noite mágica do suplente de... Yashin
Por portas e travessas, ao Barreiro chegaram notícias da atitude do rapaz da Golegã. O Barreirense entrou na corrida e, a troco de 15 contos, acordou-se a transferência. Corria o ano de 1966... Em terra de grandes guarda-redes, Manuel Bento depressa demonstrou o seu talento. E. numa tarde pardacenta de 1968, em que tudo defendeu, haveria de vingar-se do que lhe tinham feito. O Sporting corria para o título, mas, a derrota em Alvalade, com o Barreirense, acabaria por trocar-lhe o passo, para gáudio dos benfiquistas então treinados por Fernando Riera! No ano seguinte, seria decisivo para o quarto lugar do clube, no Nacional, façanha que lhe permitiria o histórico acesso à Taça UEFA. Já não enganava. O Benfica lançou-lhe o isco, o Barreirense reagiu, com a estafada resposta de que era inegociável. A 8 de Dezembro de 1970, no Estádio da Luz, festa de homenagem a Mário Coluna, cabendo ao Benfica defrontar uma selecção mundial recheada de estrelas. A Bento coube a honra de ser suplente do mítico Yashin. Como o russo, foi para o campo todo vestido de negro. Brilhou e, nessa noite, os dirigentes benfiquistas juraram a si próprios que não perderiam tal pérola, pelo que, abrindo os cordões à bolsa, em Agosto de 1971, Bento tornou-se jogador do Benfica, onde José Henrique parecia de pedra-e-cal.
Momentos de glória do pedreiro que fez o liceu...
De aprendizagem foram os primeiros tempos. Não só em campo. porque, para se valorizar como homem, voltou à escola, fazendo, sem favores, todos os exames desde a quarta classe ao liceu. Na temporada de 1974/75, com Pavic como treinador, quando o Benfica se reapossou do título, Bento era já dono e senhor das redes da Luz...
Haveria de assinar exibições fabulosas, como uma, em Glasgow, pela Selecção, que lhe mereceu dos jornalistas ingleses o epíteto de... «homem de borracha». Haveria de estar 1290 minutos sem sofrer um golo, quer ao serviço do Benfica, quer da Selecção, haveria de ser herói em Moscovo, num dia gélido de 1977, contra o Torpedo, no qual, no desempate, defendeu dois pontapés da marca de penalti e marcou o derradeiro, que apuraria o Benfica! «Ah!, mas há outro jogo, ao serviço do Benfica, cuja memória me emociona ainda muito: a final da Taça de Portugal que disputámos no Estádio das Antas, com o... F. C. Porto. Ganhámos por 1-0, talvez tenha sido a tarde mais dramática da minha vida, um autêntico sufoco, se calhar maior do que aquele da Escócia, mas acabei por defender tudo e mais alguma coisa...»
A falta de fruta e de leite em Moscovo...
Mas, por vezes, nem sempre era o voo felino, na acrobacia da defesa, o herói de tantas horas e de tantos sonhos. Como todo o génio, Bento passou também por dias negros, desencantos vários. Por exemplo, aquela dramática jornada dos cinco golos sofridos pela Selecção de Otto Glória em Moscovo e das peripécias que se lhe seguiram, na fase de apuramento para o Europeu de 1984, em que, no rescaldo da derrota, Bento se queixou da falta de fruta e de leite. «Não disse aquilo para me desculpar, disse a realidade. Aliás, 10 ou 15 anos depois, as imagens da Rússia passaram a dar-me razão.» Logo correu o rumor de que comunistas mais indignados lhe destruíram a loja de pronto-a-vestir no Barreiro, que lhe puseram fardos de palha e caixotes de fruta podre à porta de casa. Nega tudo. «Essa história do fardo de palha está muito mal contada: eu é que, para a promoção de calças de ganga, fiz montras com fardos de palha, como adereços, e alguém confundiu tudo e lançou o boato...»
Igualmente negra a noite em que, na Luz, o Liverpool derrotou o Benfica por 4-1. Admite que esse foi o seu dia aziago. «O Benfica tinha todas as condições para eliminar o Liverpool, tínhamos perdido por 1-0, em Inglaterra, mas, pronto, foi um dia terrível para mim, terrível para todos nós. Assumo o fiasco, mas continuo a dizer, sem utilizar isso como desculpa, que no primeiro golo fui encadeado pela luz; depois, pronto, desabou tudo ali, os erros surgiram, a cabeça ficou quente de mais, acabei por sofrer um dos maiores frangos da minha vida, com a bola a passar-me, estupidamente, por baixo das pernas.»

Saltilho e a ridícula reforma de... nove contos
No México, o sonho transformou-se em pesadelo, na angústia de um pé mal posto na relva. Começava assim o seu fadário. «Para além de ter sido a minha desgraça, foi, também, a desgraça de Portugal. Quando me lesionei, houve jogadores que entraram em pânico, dizendo-me ao ouvido que, comigo de muletas, o sonho tinha acabado. Sinceramente, acho que se não tivesse tido aquele azar, não teria, sequer, havido... Saltillo no futeboI português. Portugal teria, pelo menos, passado aos oitavos -de-final, o brilharete acabaria por disfarçar todas as feridas. Mas como há males que vêm por bem, mal seria não ter havido Saltillo. Isto não é vaidade, mas como também não sou falso modesto... Aliás, os pessoas habituaram-se a ver em mim o salvador da pátria, o homem providencial que resolvia todos os problemas. Eriksson, por exemplo, costumava dizer que estava sempre à espero que eu desse um frango, para passar a poder dormir todas as noites mais descansado!»
No regresso do malfadado Mundial do México, de muletas, trazia ainda o coração a fermentar de vontade de lutar contra o destino. «Depois de mais ou menos recuperado, andei dois ou três anos como suplente, podendo não o ter sido. Teria, no entanto, de ser uma oportunidade de facto, não oportunidades de 30 ou 40 minutos. Por exemplo, o meu último jogo pelo Benfica provou isso mesmo: roubei ao Belenenses o acesso à Taça UEFA, sendo considerado o melhor jogador em campo. Que melhor prova de que, sem aquele acidente, poderia ter jogado ao mais alto nível, pelo menos até aos 43 anos?»
Perdeu muito dinheiro com o acidente no campo de treinos de SaltilIo. Ficou a receber uma indemnização ridícula. Em 1993 as mágoas ainda não estavam afogadas. Era natural. « O futebol não se compadece com sentimentalismos ou lamentações, continuo a repetir que não tenho nada contra o Benfica, mas contra certas pessoas do Benfica, sim. Parti para o México com três anos de contrato e quando regressei, com a perna partida, já só tinha... um ano!!! Apercebi-me, então, do mundo-cão que era o futebol. Estive, praticamente, 11 meses incapacitado, lutando desalmadamente para voltar à baliza, mas... acabei por ficar com uma reforma de nove contos, sem sequer direito a actualização pela taxa da inflação. Fui cobaia para médicos que nem me respeitaram. Lembro-me, por exemplo, que uma junta médica do seguro, na FPF, me manteve horas a fio em exames estúpidos, quando toda a gente via que eu estava no estado em que estava, cheguei a ser malcriado, a perguntar- lhes se não me queriam descascar até à ponta dos cabelos para perceberem que, de facto, teria direito à pensão ridícula de... nove conto! O Benfica, valha a verdade portou-se com muito mais dignidade. Apesar de não me pagarem pelo valor que estava acordado antes da partida para o México foram-me pagando, dignamente. .
Tornara-se, entretanto, treinador de guarda-redes. No ano passado, contudo, seria despedido da Luz através da frieza de uma... carta. Valeu-lhe Fernando Festas que o chamou para seu adjunto no Leça.
In "100 figuras do futebol português - Abola - 1996"

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